Estudiosos apontam que a água pode ser motivo de conflitos internacionais no futuro.
The Nation – Nova Iorque
Quando algumas nações detêm poder sobre a água de outras, as conseqüências podem ser desastrosas. Elemento essencial à vida, esse precioso líquido já é alvo de cobiça em certas regiões do planeta. À medida que a população mundial cresce e a água se torna escassa, os conflitos aumentam. A discussão internacional sobre os recursos hídricos, que muitas vezes não respeitam as fronteiras dos países, suscita este debate sobre o seu aproveitamento.
Nova Iorque, EUA - Já foi dito que a água é o “ouro azul”, e que as próximas guerras por recursos naturais não serão travadas pelo petróleo, mas pela água. Maude Barlow, conselheira sênior para as Nações Unidas sobre temas ligados à água, escreveu que a forma como abordaremos esse recurso “vai, em grande parte, determinar se o nosso futuro será pacífico ou perigoso”.
A organização britânica sem fins lucrativos International Alert publicou um relatório identificando 46 países onde a água e os problemas climáticos poderiam dar início a violentos conflitos a partir de 2025, pressionando o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, a afirmar: “As conseqüências para a humanidade são graves. A escassez de água, que ameaça os ganhos econômicos e sociais, é um combustível potente para guerras e conflitos.”
Não há dúvida de que as reservas mundiais de água potável estão ameaçadas. Um bilhão de pessoas não tem acesso à água potável hoje, e esse número deverá chegar a 2,8 bilhões em apenas duas décadas. Resultarão esses desafios em uma “guerra pela água”? Provavelmente não, dizem os especialistas. Mas os conflitos estão se acumulando e a batalha pelo controle das decrescentes reservas de água potável já começou. Gigantes internacionais – como os EUA, Israel e a China – já deram seus primeiros passos.
Controle chinês sobre as fontes asiáticas
Cinqüenta anos desde que o Dalai Lama fugiu do Tibete e 60 depois que os chineses invadiram o país, milhares de pessoas deram seu apoio ao movimento pela libertação do Tibete. Porém, muitos ficariam surpresos em saber o que está em jogo além da liberdade religiosa e política. O planalto tibetano é a fonte de uma parte importante da água potável na Ásia. Os principais rios da região nascem das montanhas geladas para irrigar as fazendas, casas e fábricas da China, Índia, Paquistão, Nepal, Butão, Bangladesh, Mianmar, Tailândia, Vietnam, Laos e Camboja. Incrivelmente, os países afetados contêm 85% da população da Ásia e quase metade da população de todo o globo.
Degelo nas montanhas do Himalaia leva água para países que somam 85% da população asiática. (Ryszard Pawlowski)
Não apenas a China detém um poder incrível ao controlar o fornecimento de água de tantas pessoas, mas os rios que se originam no planalto estão cada vez mais ameaçados por níveis recorde de poluição, causados por atividades industriais, desflorestamento, mineração e manufaturas. E isto não é sequer a pior parte do problema: conforme Keith Schneider e H. C. Pope escreveram para a ONG Circle of Blue [que poderia ser livremente traduzido como "Círculo de água"], um clima cada vez mais quente está fazendo as geleiras da região retroceder mais rápido do que em qualquer região do planeta.
“A água emergiu como um tema chave, que poderá determinar se a Ásia se dirige rumo à cooperação mutuamente benéfica ou à competição deletéria entre estados”, escreveu Brahma Chellaney para o Japan Times.
Então, qualquer ação realizada pela China no Tibete afetará, em última instância, todos os países rio abaixo. “Há muito pouca discussão sobre a natureza internacional dos recursos hídricos”, disse Peter Gleick, presidente do Instituto Pacífico. “Eu não sei como fazer os chineses entrarem na mesma discussão que o resto do mundo, mas é necessário que haja mais negociação internacional e diplomacia para se evitar atritos, tensões e principalmente conflitos sobre os recursos hídricos.”
As previsões sobre mudança climática são preocupantes, e elas se somam ao fato de que a situação atual já não é boa na China. A industrialização deixou a água escassa ou poluída demais para beber em certas regiões. Para piorar a situação, o país foi recentemente atingido por secas. Em fevereiro, o Guardian reportou que 3.7 milhões de pessoas e 1.85 milhões de animais estavam sem água.
Muitos temem que a água do Tibete será a “solução” para os problemas da China, pois o país planeja instalar múltiplos sistemas de canais e represas que desviarão as águas provenientes do degelo das geleiras himalaias.
A água e o conflito árabe-insraelense
A China não é o único país ameaçado pela seca. No Oriente Médio, um dos locais mais quentes e secos do mundo, a água tem sido uma fonte de discórdia tanto quanto um elemento de negociação. “A disputa árabe-israelense é um conflito pela terra – e talvez, tão crucialmente quanto isso, pela água que flui através dessa terra”, escreveu Martin Asser para a BBC News.
Junto ao rio Jordão, atualmente 90% desviado por Israel, Síria e Jordânia, os países estão de fato enfrentando escassez. Mas não está exatamente claro o que isso significa para diferentes grupos de pessoas, como os israelenses e palestinos. “Eu penso que a escassez é um cenário político no qual as pessoas se inserem”, disse Samer Alatout, especialista em problemas de água entre israelenses e palestinos e professor do departamento de sociologia rural da Universidade de Wisconsin (EUA). “Se você tem uma idéia geral do que é a escassez, como, por exemplo, 500 metros cúbicos de água por ano por pessoa, isso não quer realmente dizer nada. Você não está considerando quem consome quanta água e quando.”
A exploração de 80% dos poços em território palestino está proibida. (Ranbar)
Enquanto o consumo varia entre israelenses, eles têm acesso contínuo à água. Os palestinos, por outro lado, estão sob a vontade de Israel. Na Cisjordânia, os palestinos têm acesso a apenas 20% da água do aqüífero situado sob seu território, pois está proibida a exploração de poços. O consumo per capita de água está na média de 60 litros por dia, abaixo mesmo do padrão de 100 litros por dia da Organização Mundial da Saúde. Para os israelenses, este número se aproxima dos 300 litros por dia.
Em Gaza, o aqüífero está tão poluído e sobrecarregado de poços que a água não pode ser bebida. Dos 4 mil poços existentes em Gaza, somente cerca de 10% estaria de acordo com os padrões da Organização Mundial da Saúde. Cerca de 40% das casas em Gaza não tem água corrente. E mesmo para aquelas que têm, diz Alatout, o serviço de água é intermitente. “Durante o verão, eles podem ter seu acesso restrito a um dia por semana, durante algumas horas”, explica. “Eles enchem banheiras e recipientes. E compram água de caminhões pipa independentes, que interferem no suprimento de água. Boa parte do esforço e de seu tempo são gastos na tentativa de conseguir água para suas casas.”
E, como na China, as coisas provavelmente vão se deteriorar ainda mais nas próximas décadas. “Para os palestinos, a mudança climática agravará ainda mais o conflito com Israel”, escreveu o jornalista investigativo Andy Rowell. “O acesso à água já é uma das principais causas para a disputa. Quando a água ficar mais escassa, isso se somará ao conflito. Aquele que controlar o acesso aos recursos hídricos controlará o poder.”
Agora, este poder está claramente nas mãos de Israel. Por esta razão, Alatout não vê uma guerra pela água no futuro dessa região. “Os israelenses não vão lançar uma guerra porque eles já estão no poder. Os palestinos não podem de fato iniciar uma guerra, nem os jordanianos; não é factível.”
Isso não significa, diz ele, que os conflitos não vão se expandir ou se intensificar. A água é, afinal, uma necessidade vital. Mas as decisões sobre a água precisarão fazer parte de um plano mais amplo que leve em conta as raízes políticas, culturais e sociológicas do conflito, diz Alatout. Para os palestinos, este é um tema ligado à sua própria soberania. “Se Israel continuar negando aos palestinos o direito humano básico de acesso à água limpa, eles negarão à Palestina o seu direito de ser uma nação”, escreveu Rowell. “Isso significa que não haverá paz.”
Estados Unidos pode restringir água do México
A idéia de uma “guerra pela água” provavelmente invoca lugares como o Oriente Médio e a África. Mas nos últimos anos tem havido tensão real entre os Estados Unidos e o México.
A razão da disputa é o Rio Colorado, que corre por sete estados dos EUA antes de banhar o México e desembocar no Golfo da Califórnia. Suas águas alcançam 30 milhões de pessoas e quase 1 milhão de hectares de plantações. Através de canais e aquedutos, ele ajuda a abastecer cidades secas como Las Vegas, Phoenix e Los Angeles [todas nos Estados Unidos].
Sob o Tratado Mexicano da Água, de 1944, os Estados Unidos concordaram em garantir aos seus vizinhos do Sul 1.9 trilhões de litros de água por ano. Contudo, por muitas décadas, os habitantes do sul da fronteira seguidamente receberam mais do que o acordado pelo tratado, na medida em que o fluxo da água excedia o que os fazendeiros podiam usar.
Mas cerca de uma década de seca pressionou os estados ao redor do Rio Colorado a encontrar formas de extrair mais água do rio. Eles desenvolveram um plano para prevenir a infiltração de água e também para construir um reservatório logo ao norte da fronteira para captar esses fluxos “excessivos”.
Os administradores da água vão orgulhosamente declarar que estão prevenindo o “desperdício” e aumentando a eficiência. Mas, no deserto, a água nunca é desperdiçada. Ao invés disso, a água que se infiltra no subterrâneo flui para baixo do Vale Mexicano ao sul da fronteira, irrigando os campos dos fazendeiros locais. A área também representa um habitat crucial para milhões de pássaros migratórios.
O braço-forte dos Estados Unidos frente ao México assemelha-se à posição da China na Ásia, assim como à relação de Israel com a Palestina, onde o país que detém os recursos claramente detém a força política e há pouca chance de uma alternativa para os que estão sem água. Pode-se esperar que os Estados Unidos e o México possam resolver essa questão de maneira mais equitativa no futuro, mas ao redor do mundo os conflitos podem evoluir num rumo diferente conforme a água ficar mais escassa. “O que é mais provável é que a crise da água continue a piorar”, diz Aaron Wolf, professor de Geografia na Universidade do Estado de Oregon [Eua] e especialista em disputas transnacionais pela água. “O resultado será mais pessoas sofrendo e morrendo e danos cada vez maiores para o ecossistema.” As pessoas nos países ricos serão mais capazes de se adaptar, diz ele. As dos países mais pobres não terão a mesma sorte.
“O verdadeiro problema é a crise, e não o perigo de um conflito”, diz Wolf. “Entre 2,5 e 5 milhões de pessoas morrem todo ano por causa da falta de acesso a condições sanitárias básicas e a um suprimento seguro e estável de água. Possíveis guerras à luz da crise atual são uma distração perigosa.” A verdadeira ameaça, alerta, é não agirmos agora para responder à crise que está diante de nós.
Tara Lohan (excertos)